Meet the artist
Juline Lobão

Entre cores vibrantes e formas abstratas, a alagoana Juline Lobão utiliza a arte para comunicar seus sentimentos e expressar a saudade de sua terra natal e memórias com a mãe.

A artista abriu as portas de seu estúdio para a Obrah e conversamos sobre sua trajetória, estilo, inspirações, curiosidades - entre outros assuntos.

Um lugar favorito  

Praia do Francês, em Alagoas.  

Uma memória 

Minha mãe fazendo crochê no fim de tarde, e eu na rede, vendo ela fazer isso. É praxe, todos os dias ela faz isso enquanto assiste alguma bobagem na televisão e conversa potoca. É uma memória que eu gosto, me traz tranquilidade.  

Uma curiosidade sobre você 

Sou uma pessoa muito desastrada. Eu quebro qualquer coisa. Por exemplo, eu tenho um gato aqui em casa, o Américo. Quando vou pintar, já coloco ele longe. Já derrubei tinta nele uma vez, o coitado ficou todo rosa. Então eu sou tão desastrada que meus amigos e minha família, quando alguém quebra alguma coisa, falam que a pessoa fez uma “julinice”. Sou muito, muito desastrada mesmo.   

Uma música que traz boas lembranças  

Estado de Poesia - Chico César

Quem é você, Juline?

Eu sou alagoana. Tô aqui em São Paulo há 6 anos. Sou formada em publicidade, mas nunca trabalhei diretamente com publicidade. Sempre trabalhei mais com design gráfico, ilustração e estamparia. Vim para São Paulo, inclusive, para trabalhar com estamparia.  

Sempre desenhei. Eu sempre fui uma pessoa muito calada, desde criança preferia observar, e o desenho era a forma que eu tinha de me comunicar, e também de entender o que eu estava sentindo. Então, se eu estava um pouquinho mais triste, eu desenhava algo mais triste.  

Como eu também gostava de moda, a estamparia foi a forma que eu encontrei de unir esses mundos - do desenho e do design. Mas aí eu comecei a ter algumas desilusões com a estamparia, porque me incomodava muito a questão de ter que fazer algo direcionado a um briefing. E, às vezes, eram coisas que eu considerava feias, que não tinham nada a ver comigo. Então, eu senti uma necessidade de, cada vez mais, trabalhar com algo autoral.

                       

Quando você era menor, se imaginava trabalhando com arte? 

Eu nunca imaginei, na verdade. Eu só me imaginei trabalhando com arte há 4 anos, quando eu quis sair do meu emprego na estamparia. Na verdade, a ilustração é arte, mas eu digo no sentido de não ter uma demanda comercial por trás. Então não, eu nunca pensei sobre isso seriamente. 

Eu fiz faculdade de psicologia e foi lá que eu pude ter acesso a Nice da Silveira, que é uma psiquiatra alagoana. Um dos métodos dela é, justamente, o tratamento com arte. Então os pacientes eram esquizofrênicos, tinham algum distúrbio mental, e eles pintavam, era essa a dinâmica da terapia. Eu achei aquilo extremamente importante, porque, de certa forma, eu me comunicava assim, e era sempre algo abstrato, que tinha uma manifestação do inconsciente. Foi aí que eu tive o primeiro “startzinho”, que eu pensei que precisava trabalhar com algo relacionado a ilustração, a desenho, algo que consiga aflorar isso. 

Mas, minha mãe teve um surto quando eu disse que queria largar a faculdade de psicologia e disse que eu morreria pobre se trabalhasse com arte, que seria melhor escolher algo relacionado a isso. E foi então que eu entrei na faculdade de publicidade, que era o que eu tinha mais próximo dessa questão da criatividade. Não tinha design gráfico na época, eu acho. Então eu nunca tive a consciência de que trabalharia com arte, sempre passava por um caminho de lidar com a criatividade e tal. Isso começou a se tornar concreto há 4 anos, quando eu iniciei o processo de trabalho autoral.

E esse projeto de ser autônoma foi algo que aconteceu da noite para o dia ou foi progressivamente acontecendo?

Foi acontecendo aos poucos. Eu fazia alguns desenhos e ia postando no Instagram e as pessoas começaram a se interessar. Fiquei pensando “sei que posso vender isso e as pessoas vão comprar”. Mas, na verdade, eu estava passando por um momento complicadinho na minha vida pessoal e desenhar e pintar eram as formas que eu estava encontrando de um ter um escape.  

Eu também tava com muita saudade da minha cidade, tava com saudade da minha mãe, dos meus amigos. E começar a ter esse trabalho autoral era uma forma de dar colo à minha saudade. De resgatar certas memórias. Tanto que, mesmo que sejam abstrações, eu tento colocar formas, cores muito próprias do que eu vejo na minha cidade. As obras têm os nomes dos lugares que eu já passei. Então eu gosto de resgatar isso como um colo mesmo. Pra minha saudade e para as minhas lembranças. 

Então, foi algo que foi aos pouquinhos, não teve um dia que eu decidi fazer isso. Foi uma construção diária mesmo, até que eu vi que eu já tava fazendo aquilo, já tava muito imersa e eu precisava tratar com uma seriedade maior. E aí eu larguei o meu emprego, me dediquei cem por cento a isso. 

Você pensa em, em algum momento, voltar para Alagoas?

Não. Um amigo meu tem uma frase muito boa que ele fala que Alagoas é uma ótima madrasta, mas é uma péssima mãe. Porque a gente sente muita falta quando a gente tá fora — tem todas as maravilhas, é a minha casa, de onde eu vim, então é um lugar que eu me sinto muito à vontade — mas é uma cidade que ainda tem uma cabeça muito pequena. Assim, nada muda, o ritmo é outro, então eu já fico um pouco entediada quando eu tô lá.  

E São Paulo, né? Quando eu cheguei aqui e olhei a quantidade de gente e tudo acontecendo ao mesmo tempo, eu me senti como se tivesse a liberdade de ser qualquer coisa. Melhor ainda, eu posso ser eu. Aqui foi onde eu me senti à vontade de ser eu. Parece meio irônico, é meio conflituoso, mas em Maceió eu não me sentia tão à vontade com isso. Enfim, é uma cidade que tem uma cabeça que precisa se modernizar, no sentido de ser mais libertária e progressista. Então eu não não me vejo mais voltando pra morar, mas estou lá nas férias, tomo banho de mar, dou um beijo em mainha e volto. Não me vejo morando em outro lugar que não seja São Paulo no momento. 

Como foi a mudança para São Paulo?

Eu vim com 24 anos. Um mês antes do meu aniversário de 25, na verdade. E foi bem do nada. Vim pra fazer um curso de dois meses de estamparia. Eu trabalhava, em Maceió, em um estúdio de design gráfico e o meu chefe falou pra eu ir fazer o curso, trabalhando à distância.  

Cheguei aqui e fiquei completamente apaixonada por tudo o que a cidade tinha a oferecer. Surgiu uma vaga para uma empresa de tecelagem que estava precisando de uma desenhista que não tivesse tanta experiência mas queria começar. E era eu, né? Fiz um portfólio, dei uma inventada, e fui chamada pra entrevista. Nessa entrevista falei que iria me mudar pra cá, que estava tudo certo — e nem tava, não tinha nem perspectiva disso. Disseram que entrariam em contato comigo e eu pensei “lascou”, né? Vou ter que me mudar pra São Paulo. Vou ter que ir mesmo saber da resposta.  

Meus irmãos já moravam aqui, então foi algo mais fácil, eu já tinha um um suporte. Me mudei e, em uma semana, recebi a notícia de que não tinha conseguido a vaga. Mas, depois de um mês, recebi a notícia que tinha outra vaga nessa mesma empresa e que já estava tudo certo pra eu entrar. E foi isso. Foi essa loucura. Nada certo, só vim. 

Como você descreveria a sua arte? 

Ela é abstrata e vem muito do que eu quero comunicar com os meus sentimentos. É algo que eu faço pra mim, é o que eu estou sentindo. As minhas referências são as minhas memórias. Eu tento resgatar um pouco disso. Nesse caos é fácil a gente se deslumbrar e se perder um pouco do que a gente é, principalmente falando de raízes. A gente, que não é daqui [de São Paulo]. Então a minha arte é justamente para tentar resgatar um pouquinho essas raízes, para expressar como eu me sinto e pra me comunicar comigo mesma.  

Eu tento usar muito das cores e formas do litoral, tendo algumas em específico. Minha mãe é baiana, do sertão da Bahia, então eu passei muito tempo da minha infância lá. Era muito o sertão da Bahia e o litoral de Alagoas. Tento unir isso em texturas e cores, tanto que o meu trabalho é sempre muito colorido e vibrante, e a intenção é essa mesmo. Às vezes eu tô mais tristinha e isso aparece no trabalho. Algumas cores dão uma apagada, mas o intuito é mostrar o meu estado de espírito mesmo e usar as referências que eu tenho na minha memória.

Como o seu estilo foi construído?

Antigamente eu eu gostava muito de colagem, mas eu gostava muito de fazer colagem pegando objetos reais e corpos. Tinham mulheres e objetos, então era algo mais ilustrativo. Não era algo tão abstrato, à mercê do imaginário, quanto a minha arte é hoje. Então esse estilo foi moldado com o tempo, um bom tempo. 

Teve uma época também em que eu desenhava muito mulheres, eu gostava dessa questão de visualizar o corpo feminino, a forma feminina. Bem no comecinho das abstrações, ainda se conseguia ver alguns corpos femininos, silhuetas nas formas. Não era intencional mas algumas pessoas diziam que conseguiam ver o corpo de uma mulher. É interessante porque quer dizer que isso estava ali, no meu inconsciente.  

Se você pegar um trabalho meu do ano passado, é possível ver que ele já mudou. Hoje em dia eu tento ter uma unidade maior. Uma paleta mais bem construída. Justamente pra criar essa essa identificação.

Você também possui muitas referências às folhagens de Alagoas e às festividades nordestinas. Existe algum elemento em específico que é o seu favorito?

Não é um elemento, mas eu gosto muito de usar a cor azul. O azul anil e o vermelho, que eu tento colocar em tudo. Porque elas me trazem um conforto muito grande.  

Nas lembranças que eu tenho da minha mãe, ela está sempre com alguma peça azul. Eu torço para o Centro Sportivo Alagoano (CSA), time de Alagoas, e tenho memórias de estar no estádio com aquele mar azul. Também tem o azul do mar, literalmente, de Maceió. Então eu tento colocar essa cor porque me traz um conforto, me deixa feliz, é um carinho.  

Tento colocar sempre o vermelho também, que acho que traz a intensidade do sol e deixa tudo mais vibrante. Esses são os elementos que eu acho que são fundamentais pro meu trabalho. 

A sua arte quer afirmar alguma mensagem?

O meu intuito é conseguir, de alguma forma, mudar o humor de quem está vendo. Tentar trazer uma alegria, um sorriso ou um “uau”, como um arregalado no olho. Porque é meio que o que eu faço pra mim, né? Se eu tô um pouco mais triste, tento pintar e mudar isso internamente. E se eu tô feliz, tento pintar justamente pra mostrar que tô feliz. O propósito é esse.

Qual a sua relação com o digital?

Meu processo é digital. Eu trago isso da publicidade do design gráfico. Sempre começo no digital. Abro o Photoshop e vou testando cores e formas. É onde eu me sinto mais à vontade porque eu comecei trabalhando com isso e também porque consigo apagar mais rápido. Agora eu estou focando nas telas, e começo com um esboço digital para depois passar o desenho para elas. É mais fácil de contornar erros e mais rápido.  

Eu preciso mudar um pouco isso porque preciso aprender a aceitar o erro. A pintura vai muito disso. Errou? É isso, passa por cima ou tenta outro caminho. Com o digital, você erra e dá um “control Z” e pronto, não existe mais esse erro. Eu preciso passar um pouco mais pro manual justamente pra trabalhar isso, mas o digital ainda é o que funciona pra mim. 

Quais materiais você usa?

Para passar o desenho pra tela, eu uso um lápis mesmo, um giz, basicamente pra poder fazer os contornos e medir as proporções. Às vezes, no meio do caminho, eu mudo um pouco essas proporções. E uso a tinta acrílica depois e, pra finalizar, o verniz.  

Hoje eu trabalho mais com tinta acrílica, que é o que eu gosto mais. Estou tentando usar outros materiais como pastel e giz, mas ainda não rolou muito. Quero explorar texturas e linhas tortas, eu acho que tem um charme nisso. Mostrar que as coisas são defeituosas também, né? Nada é tão certinho. Até porque tem outras interferências. Tipo, uma rocha, por exemplo, tem interferência do vento, do mar, então não vai ser perfeita. Vai ter aquele aquele passar do tempo registrado nela. 

Você tem algum ritual ou rotina quando vai produzir suas artes?

Gosto de sempre começar tomando um cafézinho. Tomo meu café, dou uma sentada pra organizar as ideias e aí começo. Agora tô tentando colocar uma musiquinha também. Coloco um brega, um forró dos anos 90 pra dar uma levantada no astral e começar a pintar animada.  

Antes, eu não gostava muito de escutar música, porque me desconcentrava um pouco. Mas eu moro sozinha e, com toda essa questão da pandemia, passei muito tempo em casa sozinha, então eu gosto de colocar uma musiquinha pra dar uma levantada, uma mudada nas coisas. Se eu estiver meio pra baixo, eu não consigo completar o quadro, enfim. Então, é bom um astral massa pra poder começar. 

E você percebe alguma mudança nas suas artes com música?

Hoje em dia eu consigo ver essa diferença. Até o o pincelar é diferente, parece que vai com mais vontade mesmo, num ritmo. É como se o pincel fosse dançar também, a mão dança. Então, eu consigo notar uma uma diferença, assim, me dá um ânimo muito maior. Acho que isso reflete no trabalho, na tela. O ambiente influencia muito no que a gente está fazendo. Principalmente com algo que você está comunicando ali, tentando passar uma expressão. Nossa, faz muita, muita diferença.

As paredes da sua casa também levam arte? Se sim, suas ou de outros artistas? O que te leva a escolhê-las?

Eu tinha feito um mural em casa porque eu gosto de sempre estar pintando alguma coisa. Mas, como eu passei muito tempo em casa, ficava muito abusada das coisas que estavam na parede, sempre queria mudar alguma coisa.  

Em relação a quadros, eu gosto muito de pendurar quadros de artesãos, principalmente nordestinos, de Alagoas e algo que remeta mais à cultura popular. Coleciono também algumas pinturas de amigos, gosto de algo mais íntimo nas paredes da minha casa, então vou tentando colocar coisinhas que fazem sentido pra mim e pro meu lar. Como uma boa canceriana, tudo tem muito significado emocional. 

Que artistas você admira ou se influencia?

Eu gosto muito, muito, muito mesmo da Geo Brandão, uma artista alagoana. Eu acho ela um máximo. Ela é maior do que eu e o trabalho dela me inspira muito. Tem o Pedro Lima, que também é alagoano, e o trabalho dele é uma explosão e me inspira muito. Eu acho uma construção muito bem definida. Tem um artista daqui de São Paulo, o Júlio Vieira, que eu sou apaixonada. Ele me inspira muito, ele é maravilhoso. Tem também a Ana Leovy, que é uma pintora mexicana e a bicha faz umas combinações de cores que eu fico espantada, o olho da gente brilha porque ela é fantástica nisso. Então é alguém que eu levo também como inspiração. Acho que os principais são esses. Tem muitos ainda de que eu tento sempre estar estudando e consumindo. Principalmente artistas nordestinos e latinos. Mulheres também.

Como você vê a cena de artistas independentes e qual é a importância de plataformas como a Obrah para a projeção de seu trabalho como artista?

A cena é bem complicada. Porque falta justamente esse apoio, né? O artista independente realmente tem que fazer tudo só. Chega uma hora que não dá. A cena independente às vezes é exaustiva. Às vezes não, ela é completamente exaustiva pra quem tá tentando fazer algo, porque você tem que fazer tudo sozinho, então acho que por isso a importância de plataformas de apoio ao artista.  

Por isso também que eu estou na Obrah, é um lugar onde eu me sinto muito acolhida, no sentido de ser muito fácil conversar com vocês. É um diálogo muito aberto e sincero. Eu acho que é muito importante porque isso leva o artista ao que ele tem que fazer, que é criar. 

Ele não precisa estar se preocupando com logística, com alcance, com propaganda, com com essas coisas que vão deixando a pessoa cansada. Eu mesma fico cansada, às vezes não consigo pintar ou criar que a minha mente já está cheia de burocracia e eu não tenho uma solução. Então a plataforma é importante justamente porque coloca o artista na posição que ele precisa estar, que é de criador. 

Onde você se enxerga no futuro?

Um foco que eu tenho pro futuro é, cada vez mais, ampliar a escala física do meu trabalho. Sei lá, eu queria pintar um prédio, por exemplo. Eu gosto dessa percepção de colocar o trabalho na rua, porque qualquer pessoa vai apreciar, vai ver. Acho isso maravilhoso. Também ampliar a escala do meu trabalho no sentido de reconhecimento, até mundialmente. Que as pessoas de todo o mundo me conheçam.

Fotografia: Felco